O carro maldito


Eu e meus amigos usávamos um ferro velho abandonado como ponto de encontro, alem de ser um lugar muito tranqüilo, muito bom para conversar, era também um lugar com muitas coisas diferentes para fazer, como por exemplo, a avalanche de sucata ( fazíamos as pilhas de carros virem abaixo), também tinha um pequeno galpão no ferro velho, lá tinha de tudo um pouco: material para solda, ferramentas, peças de carro, uma gangorra, pneus... (dizem que o antigo dono desse ferro velho fugiu da cidade, ninguém sabe o porque, mas um belo dia ele e a sua família saíram da cidade como se tivessem fugindo de algo, nisso eles deixaram muitas coisas para trás, dentre essas coisas estavam o ferro velho e duas casas inteiras mobiliadas...) e esse galpão sempre tinha algo que nos dava alguma idéia de algo diferente para fazer.
Teve um dia que futricando algo para fazer, nos achamos uma Caravan atrás de uma pilha de pneus, apesar de velha, ela estava bem conservada (se você levar em consideração que era um carro velho que ficou anos parado). Era um carro mais ou menos, com um motor mais ou menos, mas que podia ser usado para muita coisa, então começou a surgir idéias sobre “ o que fazer com o carro” de todos os lados, uma mais absurda que a outra ( claro neh? 5 moleques surtados reunidos só poderia dar em algo assim ), um queria transformar o carro em algo parecido com uma festa ambulante, o outro queria uma zona, outro queria fazer um carro de corrida... ate a idéia de fazer um carro blindado apareceu. Mas teve uma idéia que sem duvida nenhuma superou todas, ela era tão boa e tão “absurda” que todos a adoraram:
- (Marcos) Esse tipo de carro não é o usado pelas funerárias?
- (Carlos) Sim, tem um monte de funerárias que usam esse tipo de carro para levar os defuntos...
- (Marcos) E se agente fizesse um carro funerário maldito? Para sair a noite para botar o terror nos cagões de nossa cidade???
A idéia foi seguida por um “NOSSA!!!”, mas não foi um “NOSSA que idéia besta!!!”, foi um “NOSSA que idéia genial!!!”.

( para qualquer outra pessoa, que não more em minha cidade, essa idéia parece absurda e improvável de dar certo, mas para quem mora aqui sabe que idéias desse tipo podem sim dar muito certo. As pessoas de minha cidade são muito das cagonas, alem também que o povo daqui é muito supersticioso, para quem já leu a historia do lobisomem e a história do cemitério, já deve ter percebido isso... agora voltamos a historia)

Logo depois de surgir a idéia, começamos a anotar todas idéias que iam surgindo, eram todos os tipos de idéias que se possa imaginar, idéias sobre a aparência do carro, o barulho que ele devia fazer, como e onde agente iria abordar as nossas vitimas, o que deveríamos vestir... e por ai vai, já que inteligência, criatividade e retardardisse era o que não faltava ali.
Começamos logo no dia seguinte a colocar as nossas idéias em pratica, quebramos os nossos cofrinhos e juntamos o maximo de dinheiro que conseguimos, daí compramos algumas coisas que ainda faltavam para começar a reformar o carro (para nossa sorte o galpão tinha quase de tudo que precisávamos). Uma coisa que deu trabalho, foi fazer o carro brilhar no escuro, durante muito tempo ficamos pensando numa forma de fazer o carro brilhar, mas a solução veio de um lugar meio inesperado.
Um belo dia apareceu o Carlos com um terço (daqueles de rezar), tal terço que o irmão dele havia ganhado na primeira comunhão, que aconteceu no dia anterior, então ele nos chamou para dentro do galpão e lá ele nos mostrou que o terço brilhava no escuro, a idéia dele era arranjar um monte desses terços fluorescentes, desmontá-los e os colar na lataria do carro. Todo mundo gostou da idéia, mas o problema era onde encontrar tanto terço para colocar no carro??? Nos procuramos por toda a cidade e ate achamos alguns, mas eram tão poucos que só serviam para cobrir uma roda, então alguém teve a seguinte idéia “ deve ter um monte desses terços lá na igreja!!! Vamos lá a noite e pegamos eles!!!”.

- (Marcos) você esta doido??? Assaltar uma igreja!!! Mas nem morto.
- (Marcelo) não!!! Nos podemos deixar uma grana no lugar, daí não seria roubo!!!
- (Eu) Ahhh seria sim...
- (Marcelo) seria não...

Ficamos um bom tempo discutindo se seria roubo ou não, porem eles falaram tanto, mas tanto, mas tanto, encheram tanto a nossa paciência que me convenceram a entrar na igreja de noite, sim “ ME CONVENCERAM”, não só a mim como ao Carlos também, os únicos que eram contra a idéia (na hora de ter as idéias tortas todo mundo dá um pitaco, mas na hora de realizar as idéias tortas, todo mundo tira o dele da reta). Na madrugada seguinte (se for para fazer merda, que faça merda logo, esse era meu ditado) eu e o Carlos nos encontramos na frente da igreja, daí entramos pela janela lateral e fomos direto para a sala onde o padre guardava as bugigangas (pelo menos meu anos de coroinhas serviram para algo), procuramos por todos os contos e acabamos achando uma caixa cheia de terços, no lugar da caixa deixamos um envelope com dinheiro e um bilhete que dizia: “ preciso dos terços para pagar uma promessa!!! ”
No dia seguinte já estávamos desmanchando os terços e os colocando na lataria do carro, no começo queríamos cobrir o carro inteiro, mas decidimos apenas nos desenhos do carro (beiradas das portas, ao redor do farol, nos contos em geral), queríamos que apenas destacar o desenho do carro a noite. Alguns dias depois o Roger apareceu com um monte de envelopes:
- (Eu) o que é isso?
- (Roger) são adesivos para colocar no carro.
Carlos deu uma olhada no que ele trouxe, e exclamou:
- (Carlos) você quer colocar estrelinha e luazinhas no carro???
- (Roger) sim!!! Mas agente corta elas, elas brilham no escuro como os terços... são daquelas que agente coloca no teto do quarto e elas ficam brilhando de noite!!!
- (Todo mundo) Ah!!! Por que não disse antes???
Com esses adesivos nos fizemos uma crus no capo do carro, para complementar nos deixamos o carro com um ronco bem forte (afinal, carro para botar medo tem que ter um ronco forte), também cortamos uns pedaços da parte de cima da grade que cercava o ferro velho, apenas a parte que tinha umas pontas de lança, e colocamos essas pontas de lança em cima do carro, tipo o da família Adams, outra coisa que deixou o carro mais macabro foi o plástico vermelho que colocamos dentro dos faróis, isso dava um efeito de luz vermelha.
Com o carro pronto, agente começou a se dedicar as fantasia ( as fantasia serviam para que não fossemos reconhecidos, já que elas eram muito toscas para assustarem alguém), cada um fez a sua fantasia, a melhor foi a do Carlos, ele fez uma fantasia de morte que tinha ate uma foice.
No primeiro dia estávamos muito nervosos, queríamos um lugar pouco movimentado e com pessoas fáceis de assustar, bêbados, então decidimos ir pros lados de uma zona que era cheia de bêbados, aos arredores dessa zona sempre tinha um bêbado. Foi dito e feito, achamos um cara tão bêbado que a cada dois passos cruzados ele caia, fomos devagar por trás dele, fazendo o menor barulho possível, quando estávamos perto o suficiente nos acendemos os faróis, aceleramos o carro e um gritou de dentro do carro “ Viemos te levar para o inferno vagabundo!!!”, o bêbado ficou muito assustado, tentou sair correndo mas caiu logo após, então de quatro foi engatinhando ate uma valeta e lá se escondeu. Depois fomos na a beira de um rio onde varias pessoas iam pescar de madrugada, ao chegarmos lá nós desligamos o motor do carro e fomos o empurrando (chegar sorrateiramente), vimos um tiozinho muito concentrado pescando, então fazendo o menor barulho possível fomos empurrando o carro para perto dele, quando estávamos perto o Carlos ligou o motor, acendeu as luzes vermelhas e acelerou o carro, o tiozinho só deu uma olhada assustada para trás e pulou o rio e nadou ate a outra beirada.
No dia seguinte, já mais confiantes, nos fomos assustar o povo da cidade, começamos pelo terreno baldio que algumas pessoas usavam como motel, era um lugarzinho bem conhecido aqui em minha cidade, da mesma maneira fomos empurrando o carro ate chegar perto e então fizemos a maior barulheira, para a surpresa minha e de todos o pai do Marcos deu um pulo de trás de uma moita (para ajudar ele estava pelado), logo após uma garota saiu de trás da mesma moita (ela era muito mais nova que ele e também estava pelada). Ao ver essa cena o Marcos ficou louco, colocou a cabeça para fora e gritou:
- vim buscar tua alma seu filho da p***!!! Enquanto a tua mulher esta em casa trabalhando, você esta ai na farra colocando chifre nela... teu lugar no inferno esta reservado...

Para ajudar no discurso a fantasia do marcos era de capeta (não como essas de bailes de carnaval furreca, ele pintava o rosto de vermelho e colocava dois cones pequenos de papel na testa, que com muita maquiagem ficavam parecendo chifres de verdade e a roupa era toda preta com um sobre tudo de couro velho por cima). E não teve jeito, ao ver e ouvir os dois ficaram com tanto medo que saíram correndo pelados mesmo, fomos atrás deles com o marcos gritando na janela “ vou levar os dois para o inferno, seus filhos da p***”, perseguimos eles por um bom tempo, só paramos por que eles foram para o lado de um baile muito movimentado, e para evitar merda nos paramos de perseguir eles.

Depois de duas semanas o boato do carro maldito já estava se espalhando, para ajudar nós decidimos gravar um vídeo do carro, a idéia era a seguinte, nós íamos gravar na esquina da casa do Marcelo, o carro ia vir correndo pela rua e ia passar por cima de uma rampa que ia o tirar do chão, enquanto isso eu ia ficar numa rua transversal atrás de um muro gravando, quando o carro passasse ele estaria no ar (afinal ele acabara de saltar por uma rampa) e essa era a parte que eu devia pegar “o carro no ar”. Gravamos a cena a noite, eu fiquei na rua transversal encostado no muro (tinha dois motivos para estar encostado no muro, primeiro para não ser atropelado, segundo para não ser atropelado). Começamos a gravar a cena normalmente e tudo corria bem, pelo menos ate o carro aterrissar, ele veio correndo pela rua, ele pulou pela rampa mas quando ele chegou no chão, o impacto foi muito grande e o cano de escape acabou caindo e isso levantou uma enorme fumaça por toda parte, então eles desligaram o carro e o empurraram ate a garagem do Marcelo, eu não parei de gravar por nenhum momento, apesar de saber que tinha dado tudo errado. Mas no final das contas a cena ficou muito melhor que podíamos imaginar, na fita “o carro parecia ter saído de trás do muro voando, quando ele pousou fez um barulho parecido com um trovão e uma cortina de fumaça cobriu o carro e grande parte da rua, quando a fumaça se dissipou o carro não estava mais lá.

Deixei uma copia da fita no correio da maior radio da cidade, algumas horas depois um locutor começou a anunciar que ele tinha uma fita na radio que provava a existência do carro maldito, algum tempo depois dele anunciar a existência da tal fita, começou a se formar uma multidão de desocupados na frente da radio querendo ver a fita, foi tanta a pressão que o dono da radio colocou uma tv e um vídeo k7 na frente da radio e começou a mostrar repetitivamente a fita para as pessoas que se encontravam ali. Durante dois dias a frente da radio ficou cheia de curiosos querendo ver a fita, então fizeram copias e começaram a revender as fitas. (devem ter ganhado um dinheiro danado com isso, venderam tanto, que eles mesmo perderam a conta).

Com um mês a cidade só falava disso, tinha pessoas que inventavam historias, o que dava mais força ao boato, alguns sumiços foram atribuídos ao carro maldito e ate uma mulher grávida apareceu dizendo que o filho era do carro... (quero deixar bem claro aqui que nos não fizemos isso, nosso interesse era assustar bêbados, não demos sumiços em ninguém nem engravidamos alguém, isso deve ser desculpa para não contar ao marido que o filho é do Ricardão).

Uma vez estávamos andando pela cidade quando demos de cara com um cerco policial, devia ter quase 30 policiais e mais um padre, ficamos tão assustados que decidimos nos entregar, primeiro saiu o Carlos vestido de morte, depois saiu o Marcelo que estava vestido de capeta e quando eu e os outros íamos sair, vimos o padre sair correndo, logo após um policial saiu correndo e ele foi seguidos por mais uns 3, e num piscar de olhos estavam todos os policiais entrando nas viaturas e saindo cantando os pneus. Não perdemos a oportunidade, saímos em perseguição aos policiais, mas essa perseguição durou apenas umas quadras (afinal ninguém tava afim de levar tiro).

Depois de ter colocado a policia para correr, ficamos com a moral muito alta, cada vez queríamos fazer algo mais diferente e surpreendentes. Então alguém teve a idéia de fazer o carro aparecer na festa junina da igreja central, tal festa era a maior das redondezas, vinha pessoas ate mesmo de cidades vizinhas para participar da festa. Marcamos uma reunião para decidir o que faríamos na festa, essa reunião foi um caos já que vinha todo tipo de idéia por todos os cantos, teve um que queria fazer o carro chegar voando (não só tinha a idéia, como tinha como realizá-la), outro queria que o carro chegasse pulando, teve a idéia de fazer o carro aparecer do chão... e por ai foi... mas a maioria das idéia eram perigosas, não queríamos machucar ninguém (nosso ditado era “podemos fazer a besteira que quisermos, desde que ninguém, alem de nós, se machuque ou se ferre por nossa causa!”).

Após uma longa discussão nos decidimos o que fazer: “Iríamos entrar pelo portão lateral com o carro pegando fogo!!!”, a idéia do fogo veio de uma cena de duble que um de nós viu na tv, o duble passava um gel inflamável no corpo, esse gel produzia um fogo não tão quente, pesquisamos por mais de um mês uma forma de fazer esse gel, mas no final das contas acabamos comprando pela internet.

Durante dois meses nos preparamos tudo, desde a entrada ate a saída, para ajudar mais, eu e o Carlos nos voluntariamos para ajudar na festa ( essa era uma festa totalmente comunitária, estando lá dentro seria mais fácil de planejar tudo ).

Estava tudo preparado e ensaiado, enquanto eu e o Carlos trabalhávamos na festa, os outros se preparavam para entrar na festa. Esperamos a festa chegar quase no final ( quando tem menos gente e os que sobraram já estavam totalmente mamados de pinga), o Carlos foi ate os fundos e desligou todas as luzes da festa e eu dei a autorização e eles entraram por um portal lateral (botando o mesmo para baixo), eles entraram sem que o carro estivesse pegando fogo, deram algumas voltinhas para assustar as pessoa, nisso já tinha pessoas saindo correndo de medo por todos os cantos, mas quando eles colocaram fogo no carro não teve um que não saísse correndo, devia ter quase mil pessoas na festa e em dois minutos não tinha mais ninguém na festa.

Desse dia em diante paramos um pouco com a brincadeira, começou a perder a graça, ate que um dia estávamos todos reunidos no ferro velho quando o carro ligou sozinho, primeiro pensamos que fosse um de nós fazendo uma brincadeira, ao percebemos que aquilo não era obra de nenhum de nós, demos uma geral de cima a baixo do carro e não encontramos nada, ficamos mais algum tempo em volta do carro nos perguntando “o que havia acontecido?”, de repente o carro ligou sozinho de novo, nisso ficamos muito assustados já que dessa vez nós vimos o carro ligando sem ajuda de ninguém, ficamos mais assustados ainda quando o carro começou a acelerar e o volante começou a girar, “ não havia ninguém dentro do carro, como aquilo poderia estar acontecendo?”, de repente o carro deu uma baita de uma acelerada, começou a andar, deu dois zerinhos e saiu em disparada pelo portão.

Ficamos um olhando para o outro com a maior cara de embabacados e sem entender nada, quando caiu a fixa do que tinha acontecido, saímos imediatamente do ferro velho (e não voltamos mais lá), fora do ferro velho caímos na maior discussão para entender o que tinha acontecido e a única concluso que chegamos foi que o carro era possuído mesmo!!! Eu e nem os outros vimos mais o carro, porem continuou ocorrendo as aparições do carro maldito...

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