Me pegue se puder

Andando pelo condômino tranquilamente quando me deparo com um homem furioso (com direito a careta, pele vermelha e veia saltando da testa), achei estranho o estado do infeliz mas não dei bola... afinal de contas cada loco na sua. Mas não deu para passar desapercebido, me agarrou pela camisa e gritou “Eu sei o que tu fez na noite passada”.

“ Explicando a historia, esse homem raivoso era marido da Dona Armelinda (não se deixe enganar pelo nome, dona Armelinda era a mulher mais gostosa e bonita do condominio), na noite passada eu tive um trabalho imenso para roubar as calcinhas da Armelinda, tive que roubar a escada do condomínio para alcançar o varal do apartamento dela e praticamente subornar o vigia noturno... Tudo isso no intuito de provar para meus amigos que eu era foda...”

Olhei para a situação tentando arrumar saia, era cara muito alto e forte prestes a bater numa criança indefesa que roubou as calcinhas de sua mulher gostosona. Logo achei uma brecha e escapei das mãos do canalha, sai correndo e gritando “Me pegue se puder seu viado!!!!”. Falei merda só porque tinha duas garotas olhando a situação, eu precisava mostrar que eu era o cara, mas por dentro eu estava me cagando de medo e pensando apenas em sair correndo...

Corri o mais rápido que eu podia, mas não era rápido o suficiente para tomar distancia do troglodita que chegava mais perto de mim a cada passo. Para o azar dele eu já estava com um plano armado, precisava distanciar e levar o troglodita para uma pracinha que ficava a 5 quadras de casa. Corrida em zig-zag, sempre procurando passar por obstáculos para tentar atrasar o troglodita. Eu consegui chegar perto da praça mas não no lugar que eu queria, acabei tropeçando no meio fio e o Troglodita me pegou. Estava prevendo minha morte, cheguei a fechar os olhos e a rezar. Quando esse tipo de situação acontece tudo passa mais devagar e a gente pensa em muita coisa, o estranho é que demorei muito tempo para sentir dor e na realidade nem cheguei a sentir dor. Lentamente abri os olhos e vi a cara de horrorizado do Troglodita, dei graças a Deus e a todos os santos porque as minhas preces foram atendidas e o Troglodita “viu aquilo que eu queria que ele visse naquele momento”, entendeu? Não? Vou explicar...

“O Corno é sempre o ultimo a saber que é corno e no caso do troglodita não era diferente, já que a Dona Armelinda ia todo dia na praça trair o marido com o dono da banca de jornal... Como ela fazia isso em lugar publico, todos do bairro sabiam da traição menos o Corno Troglodita que trabalhava nesse horário (não sei porque ele estava me enchendo o saco naquela hora)....”


A cara dele mudou de “corno recém descoberto” para “corno furioso”, me largou e saiu voando para cima do casal que estava aos beijos no banco da praça e ali começou uma porradaria sem precedentes na historia daquela pracinha e eu vi tudo de camarote, em cima da mesa que os velhinhos jogavam xadrez. Os dois eram fortes e lutavam bem, era tanta porrada que sobrou um soco na cara até para Dona Armelinda. A porradaria só parou com a chegada da policia. Fiquei feliz por ter escapado ileso (já que era eu que iria apanhar), mas fiquei triste de perder a vizinha mais bonita do condomínio.

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Uma Arte da Infância

 Contribuição da leitora Tatiane

Uma vez, eu tinha 6 anos de idade e lembro como se fosse hoje... Eu sempre ficava na casa da minha avó e na época ela estava reformando a casa, e colocando piso no banheiro, ou seja, não podia entrar no banheiro!
E naquela hora que o pedreiro estava lá me deu vontade de ir ao banheiro. Minha avó estava distraída no quarto. Então eu estava brincando com o armário e tinha um monte de panelas jogadas pela cozinha, eu peguei uma delas (bem a panelinha que meu tio costumava levar marmita dele pro serviço) e fui lá no quintal bem no cantinho e fiz o número dois ;x
Criança, inocente, só faz arte (e como eu era muito arteira), peguei e fui correndo mostra pra minha vó:

- Olha vó, o que eu fiz *-* (querendo que ela ficasse feliz porque eu não enchi o saco dela pra ela ir no banheiro comigo, quis mostrar que eu fiz tudo sozinha.)

- Menina não acredito, você fez cocô na panela do seu tio :O

- Ah vó, o cara ta no banheiro... Eu tava com vontade não tinha outro lugar ;x

- Por que você não me falou que eu te levava na vizinha, olha aqui, e agora menina ele vai ficar bravo, sua arteira!

HAUAHUAHAUAHUAHAUAHUAHAUAUAHAUAH eu choro de rir só de lembrar da cena, sorte que ela não me bateu! Depois ela riu muito e contou pra todo mundo, e todos ficaram me zuando, mas foi tão inocente, tão sem intenções... Minha infância é marcada por muitas artes que eu aprontei, eu deixava minha avó descabelada, coitada! Mas valeu a pena, eu amo ela. Essa é uma das artes marcantes da minha infância!

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Prego no pé

Em época de pinhão (uma semente comestível que dá nos pinheiros) eu e meus amigos nos enfiávamos em matagais para buscar pinhão, o mato era longe (quase 1 hora de bicicleta), mas como sempre andávamos em grupo nem víamos o tempo passar.
Teve uma vez que fui buscar pinhão com 3 amigos (Carlos, Lucas e Pitaco) e acabei entrando numa fria...

Já fazia uns 30 minutos que estávamos andando pelo mato e já tínhamos catado muito pinhão, então escutamos um grito:
“AI MEU DEUS!!! AAHHHHH!!! MEU PÉÉÉÉ!!!”
Olhei para o lado e vi o Pitaco se retorcendo no chão e gritando como uma menininha:
- O que aconteceu cara ? (perguntei)
- Alguma coisa fincou no meu pé...
- Fica calmo e me deixa olhar.

Olhei e vi um prego enfiado na sola do sapato, o prego era bem grosso e parecia ser enorme. Imaginei que o prego deveria ter uns 10 cm e apenas 4 cm estavam para fora do sapato.

Primeiramente nos indagamos “ como esse infeliz conseguiu pisar num prego no meio do mato?” depois perguntamos se ele estava bem. Eu tentei tirar o prego mas eu puxava e puxava e o prego nem se movia (a cada puxão o Pitaco dava um berro). Como ele não conseguia nem ficar de pé, tivemos que carregar ele para sair dali. Cada um carregava o Marcio nas costas o quanto agüentava e depois passava para o próximo, fomos nos alternando e carregando o infeliz durante meia hora, até que demos conta que algo estava errado.

“ Estamos perdidos”

Levou mais uma meia hora para encontrarmos o caminho de saída do mato. Exaustos (e com dor de cabeça de tanto escutar o Pitaco reclamar e choramingar) chegamos onde escondíamos as bicicletas. Logo surgiu outro problema, o infeliz com o prego no pé não iria conseguir pedalar!
Depois de quebrar a cabeça pensando em maneiras de voltar para casa acabamos tendo uma boa ideia, colocamos o Marcio em cima da bicicleta, subimos em nossas bicicletas e cada um foi guiando sua bicicleta com uma mão e com a outra rebocava o Pitaco em sua bicicleta.

A mãe do Pitaco ficou desesperada, desmaiou e teve um ataque de nervosismo e depois o levou direto para o hospital.

Depois ficamos sabendo que a situação não era tão grave, apesar de ser grosso o prego não tinha nem 5 cm, o prego só fez um pequeno corte no pé (mal chegou a furar)... Ficamos frustrados por ter tido tanto trabalho com um infeliz que não estava nem debilitado...

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O caso do Jeep

Continuação do conto "Calota de Landau" enviado pelo leitor Marco Aurelio Peruchi

Início de 70, um agricultor do interior do estado teve uma das engrenagens do diferencial de seu Jeep quebrada e o carro ficu parado no meio de uma estrada de terra. Procurou a peça em todos os lugares possíveis sem sucesso. Informaram-lhe que provavelmente a Royal . Gastou um dia de viajem comendo poeira nas estradas de terra de então para chegar a Anápolis e foi até a Royal  auto peças. Sr Hélio disse ao cliente que tinha a peça e deu o preço, salgado como sempre. O cliente sem alternativa, mas sem o dinheiro todo para fazer o pagamento perguntou ao Sr. Hélio se podia pagar com cheque e explicou a situação, que estava vindo do interior e que não dispunha de todo o dinheiro no momento. Seu Hélio disse que não havia problema e que o cliente poderia fazer o cheque que ele ia buscar a peça no estoque. Chegando ao estoque Hélio retirou a peça da caixa e colocou no lugar outra de modelo diferente mas muito parecida e entregou ao cliente. Recebeu o cheque e o cliente voltou para casa satisfeito. Mais um dia de viajem de volta e chegando no local onde estava o carro percebe que a peça não dá certo. Outro dia de viajem para Anápolis a fim de trocar a peça. Chegando foi direto ao Seu Hélio: - Seu Hélio, a peça está errada... -Hô rapaz, me perdoe, olha aqui, o código está certo na caixa, a peça deve ter vindo trocada! Espera aí que vou pegar a correta. Trouxe a peça certa e entregou ao cliente, que gastou outro dia de viajem na volta, desta vez com a peça certa nas mãos, enquanto seu Hélio tinha certeza que não haveria problema no recebimento do cheque, mesmo porque neste meio tempo o mesmo já havia sido compensado....

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Cocota e Titica

No meu aniversario de 10 anos eu ganhei duas codornas de presente do meu avô (ele era muito criativo para dar presentes). De inicio não gostei do presente, mas com o tempo comecei a gostar dos bichinhos e dei o nome de Cocota e Titica para as duas codorninhas, criava as duas dentro de uma caixa que ficava em meu quarto.
Um belo dia! chego da escola e não encontro nenhuma das duas codornas na caixa. Logo armei uma força tarefa para procurar as codornas dentro de casa, procurei por todo canto e não encontrei nada. Continuei procurando até perceber que a porta da sala estava aberta, então logo fui procurar as codornas lá fora.
Procurei no bosque, dentro dos blocos, no parquinho, na garagem e nada de encontrar as codornas. Passando pelas churrasqueiras me deparo com o seu Heitor.
- E ae garoto! O que você está fazendo por aqui? (Perguntou o seu Heitor)
- Nada de mais e o senhor?
- Fazendo churrasco! Agora estou assando duas codornas que eu encontrei dando sopa no condomínio.
Na mesma hora meus olhos se encheram de lagrimas e eu fui correndo para casa, fiquei deprimido por mais de uma semana, foi um triste fim para as minhas codornas...

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Construindo um quarto

Meu patrão (um grande mão de vaca) decidiu construir um puxadinho por conta própria nos fundos da empresa para guardar cacarecos. Ele comprou todo o material necessário e para economizar ele decidiu usar mão de obra escrava para construir o quartinho ( traduzindo... ele iria pegar quem estivesse de bobeira no escritório e iria colocar para trabalhar ). Para minha sorte, estava muito ocupado no dia e não pude ajudar na construção (nunca fiquei tão feliz por estar entupido de trabalho).

Da janela que ficava do lado da minha mesa eu pude ver toda a cena. Primeiro construíram a base e as fundações, jogaram concreto no chão e colocaram tijolos em cima e assim já estava pronto o chão do quartinho (se você entende um pouco de construção você sabe que isto está errado).

Depois começaram a empilhar tijolos, descobri depois que aquilo era uma tentativa de fazer uma parede. A principio não deu muito certo, toda vez que a aquela pilha de tijolos (que eles chamavam de parede) ganhava certa altura, caia... Então teve um gênio que decidiu abanar a parede para que o concreto secasse mais rápido, então a situação porque o vento derrubava a parede!

Logo se formou uma cena muito patética porque três patetas se juntaram para fazer a parede, um empilhava os tijolos com cimento, o outro abanava para o concreto secar e um terceiro segurava a parede. Isso não deu certo e a parede continuou caindo...

Daí uma das faxineiras disse que parede se construía de baixo para cima e não de um lado para outro.
Nisso o negocio começou a dar certo, eles construíram e a parede não caia. No final do dia o quarto já estava quase pronto, só faltava um teto.

Meu patrão feliz da vida com tal façanha, quis mostrar o que ele e o pessoal do escritório haviam feito, a mulher dele foi uma das poucas pessoas que ousaram entrar ali (afinal as paredes estavam tortas e parecia que tudo ia cair). Lá dentro a mulher do patrão teve uma crise alérgica, espirrava sem parar, tais espirros ecoavam pelas paredes do pequeno quarto, num desses espirros o quarto inteiro veio abaixo.

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A CALOTA DO LANDAU

Para quem não sabe do que se trata faço um breve resumo, trata-se de uma auto peças famosa, que atualmente já não existe, mas que fez história em Anápolis e região.
Pertencia ao Sr. Hélio, comerciante astuto, e que possuía o maior estoque de peças para carros nacionais e importados, novos e antigos da região.
Conta-se que devido aos preços que praticava era a última opção dos compradores, mas seja a peça que fosse, se não encontrada em nenhum lugar, podia ir a Royal que tinha.
O Sr. Hélio ficou famoso não só pela Royal, mas pelas “passagens” que ainda hoje são contadas pelos comerciantes de peças da cidade.

Um dia, no final dos anos 70, chega a Royal o proprietário de um Landau procurando por uma calota. O Sr. Hélio olhou o modelo da calota do carro, que estava parado do outro lado da rua, e disse ao proprietário que tinha a peça, mas que precisava procurar no estoque que ficava no sub solo da loja e pediu ao comprador que esperasse alguns minutos.
O cliente se distraiu conversando com um funcionário da loja e olhando algumas peças em exposição.
Chegando ao estoque, o Helio percebeu que não tinha a referida calota e voltou para a loja para falar com o cliente. Percebendo a distração do sujeito, Helio não teve dúvida, atravessou a rua, retirou uma das calotas do outro lado e colocou-a na roda que estava faltando.
Voltou para a loja e disse ao cliente que já havia instalado a calota no carro. O cliente olhou para o carro e viu a calota no lugar, só não deu conta que a outra roda do carro que estava para o lado da calçada, e portanto fora de visão, tinha ficado “banguela”.
Pagou pela calota “nova” um preço absurdo, entrou no carro e foi embora.
Voltou no dia seguinte:
- Seu Hélio, o senhor não vai acreditar, perdi a calota do outro lado!
Seu Hélio:
- Hô rapaz, agora você deu azar, aquela que te vendi ontem era a última...

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É logo ali

  Historia enviada pela leitora do blog Emilyn

Há um tempo atrás, quando eu tinha uns 12 anos, fui para o sítio do meu avô. Nunca gostei muito de ir pra lá porque nunca tem muito que fazer . Mas enfim, uma das poucas coisas que se tinha pra fazer era dar passeios e conhecer cachoeiras. Não sei de onde veio a idéia, mas se reuniram várias pessoas da minha família e uns conhecidos para conhecer um sítio que estava pra vender, onde tinha uma cachoeira linnnnda (sítio é modo de dizer, era totalmente inacessível, um terreno no meio do nada) mas por falta de opção eu fui junto.

Primeira parte do passeio é chegar até as pessoas que sabem como chegar na cachoeira, tudo bem uns 20 minutos de carro sacolejando em estrada de chão, perfeito!

Chegamos a esses vizinhos que nos levariam por horas mata adentro de boa vontade só por amizade (pessoas no interior fazem cada coisa). Eles trabalhavam em uma roça que fica na metade do caminho então não seria muita coisa pra eles.

Começamos a caminhada e entramos na mata, até aí tudo bem, tinha uma trilha até que aceitável, pensei que o caminho seria todo fácil, a final eles tinham até uma criança de colo com eles (é, eles levaram a família toda!).

A princípio não marquei o tempo porque o caminho estava tranqüilo, mas passou sei lá, 1 hora e nada de cachoeira, e o caminho começou a ficar com mais obstáculos e comecei a me perguntar se o cara levando a criança de colo não estava cansado!

Foi ai que comecei a perguntar quanto faltava. E a resposta foi “é logo ali!”.

Agora me deixe explicar uma coisa, eu sou uma pessoa de cidade e gosto de tudo que tem na cidade, ruas movimentadas e barulhentas, shoppings, poluição e tudo mais e o mais importante, quando eu digo “é logo ali” eu quero dizer na próxima quadra ou, no máximo, duas quadras adiante!!!

Mais meia hora e chegamos a um campo aberto e inclinado, então fiquei sabendo que essa era a roça em que eles trabalhavam (sério, eles levavam uma hora e meia para ir trabalhar) e esse era o meio do caminho!!!

Depois disso o caminho piorou de vez. Trilha praticamente não existia, era mato mesmo, inclinado em um ângulo absurdo, algumas partes tivemos que descer sentados, fora quando não escorregávamos sentados, tinha muita lama.

E era sempre “é logo ali”.

Descemos quase uma hora (já estava ficando com uma certa preocupação com o caminho de volta) e finalmente chegamos a cachoeira!! Que não tinha nada de especial, não chovia há algumas semanas então não tinha muita água. Onde estávamos mal tinha uma queda d’água de 4 metros! Permanecemos apreciando a vista da cachoeira vazia por impressionantes 15 minutos. E começamos o caminho de volta.

Bom, é óbvio que não era só eu que estava preocupada com a volta, minha família toda é da cidade, não somos preparados para rápidos passeios de 5h (já que levamos uma 2 horas e meia para chegar, em nossa visão de pessoas da cidade deveríamos levar o mesmo tempo para voltar) então fomos informados que como para voltar temos que subir tudo que descemos (lembra que descemos sentados?) demoraria “um pouquinho mais”.

Agora sabe a definição distorcida de “logo ali”? “Um pouquinho mais” tem a mesma lógica!!

Eles então disseram que havia um atalho, e mais que depressa aceitamos o caminho alternativo.

Pegamos um caminho meio que na diagonal para evitar as partes íngremes, e lá se foram mais 2 horas de caminhada (ou escalada). Até que chegamos a um sítio abandonado, e eu pensei que havíamos chegado! Mas, não. Esse era o atalho, passar pelo terreno dos vizinhos, invadindo a propriedade alheia (já disse que gente do interior faz cada coisa!!) e não era uma propriedade só, passamos por umas três propriedades vazias até chegar na estrada. Finalmente a estrada! Ficamos todos felizes pelo primeiro sinal de civilização, a final se não tivéssemos mais forças para prosseguir eventualmente um carro iria passar. E então foram mais uns 40 minutos de “é na próxima curva” (que tem a mesma lógica de “é logo ali” e “um pouquinho mais”), juro que não vi nem um carro passar por nós. Sério, na àquela hora não me importei nem um pouco com quem estava carregando a criança esse tempo todo, mas refletindo mais tarde não lembro deles na parte da estrada...

Enfim, quando finalmente chegamos no carro, todos suados, sujos, cansados e com fome, pensei que nunca mais iria cair na furada de um passeio/ GPI (Grande Programa de Índio), é claro que eventualmente isso aconteceu de novo...

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Liquidação do Mappin

 Mais uma contribuição do leitor do blog Marco Aurelio Peruchi


Para quem não conhece, faço um breve relato do que foram as lojas Mappin em São Paulo.

O Mappin era uma loja de departamentos muito grande, que tinha além da Matriz na praça Ramos de Azevedo, filiais em outros 3 ou 4 pontos de São Paulo.

Foi de longe a mais completa e melhor loja de departamentos do Brasil. Ali encontrava-se de tudo, desde roupas a acessórios para carro, gêneros alimentícios, eletrodomésticos, eletro-eletronicos, enfim, podia-se comparar com a Harold’s inglesa, tanto em tamanho quanto em variedade.

Na década de 90 entrou em decadência, quase faliu, fechou, e foi comprado pelo grupo de supermercados Extra.

Era famoso por suas liquidações de final de ano, e as pessoas vinham de longe para comprar suas ofertas nestas épocas. Foi a primeira loja a fechar a meia noite todos os dias.

Era um prédio de 12 andares, e salvo engano, atualmente se transformou em mais uma loja do Extra.

Sinceramente tenho trauma de liquidações. Quando o Mappin do Shopping de Santo André fez sua primeira liquidação minha mãe achou que tinha que ir lá para comprar uns talheres para casa porque, segundo ela, estavam praticamente de graça. Eu, que detesto fila e abomino aglomeração de gente, tentei demove-la da idéia de ir porque já sabia que ia sobrar para eu leva-la, mas quando mãe põe uma coisa na cabeça nem o Papa consegue tirar. Na época eu tinha uma Puma Gtb, e para quem não conhece, o escapamento 6x2 passa bem embaixo dos pedais, e quando o carro esquenta frita os pés da gente e derrete a sola do sapato. No dia fatídico, coloquei minha mãe no carro e fui até o Mappin. Quando cheguei lá, o estacionamento era uma visão do inferno, tinha carro parado até na rua, e o estacionamento é gigante, são 3 andares de vagas. Bom, comecei a procurar vaga para estacionar a barca, subi e desci o estacionamento umas 10 vezes e nada, meus pés estavam pegando fogo e começou a bater o desespero. Por fim deixei minha mãe em uma porta de entrada e continuei em busca de vaga. Depois de muito procurar e com os calos cozinhando estacionei o carro em uma vaga para deficientes (afinal eu já estava mesmo com problemas de locomoção) e sai mancando do carro para não dar muito na vista. Aí foi outra tortura para encontrar minha mãe dentro do Mappin. Depois de uns 30 minutos encontrei ela em uma banca repleta de talheres de qualidade duvidosa e aparência horrível brigando com outras 300 pessoas que por certo tiveram a mesma idéia infeliz de ir ao Mappin naquele dia para comprar meia dúzia de garfos e facas. Terminada a epopéia da escolha dos talheres entramos em uma fila gigantesca para pagar. Eu já de saco cheio perdi literalmente a paciência e parti para o desabafo. Comecei a gritar

bem no meio da fila: - Vamos comprar minha gente, aproveitem a liquidação que o mundo vai acabar, se não comprar hoje vai ficar sem nada, é o juízo final! Quanto mais minha mãe pedia para eu ficar quieto mais eu gritava, e os maridos das mulheres que deviam estar na mesma situação que eu também começaram a se manifestar a meu favor. Foi uma gritaria coletiva, de um lado os maridos e filhos e do outro as mulheres pedindo pelo amor de Deus para eles ficarem quietos. Por fim, minha mãe desistiu da fila e dos talheres, me pegou pelo braço e me arrastou para fora do Mappin sob protesto veemente dos maridos e filhos que me apoiavam. Voltamos para casa e minha mãe acabou encontrando talheres melhores e mais baratos em uma lojinha perto de casa. Minha maior felicidade foi quando o Mappin faliu, mas a música não sai da minha cabeça e ainda hoje tenho pesadelos: Mappin, venha correndo Mappin, até meia noite Mappin, é a liquidação!

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O carro rosado

As vezes o meu pai me pegava para fazer certas coisas que ele deveria fazer mas tinha uma preguiça total de fazer, como levar o lixo para fora, ajudar o meu avô no banho, lavar a louça e etc. Apenas uma dessas coisas eu fazia sem reclamar, lavar o carro... afinal era a única oportunidade que eu tinha de dirigir o carro (mesmo que fosse apenas para tirar da garagem).
Então um dia meu pai veio com uma cera mágica que tirava o os riscos e dava brilho no carro, como sempre o preguiçoso me ordenou a lavar e encerar o carro, mas eu não reclamei não. Tirei o carro da garagem e o lavei como se fosse o meu filho, deixei o bichinho tão limpo que eu poderia usar como espelho. A cera era vermelha escuro, era a primeira vez que eu via uma cera automotiva desta cor, mas como era a super cera mágica que tirava risco e dava um brilho intenso eu apliquei ela em todo o carro. Ao tentar retirar a cera eu percebi que o negocio não havia dado certo, eu esfregava e esfregava a flanela e o carro que era branco estava rosa, na hora pensei que era apenas num ponto mas o carro ficou inteiro rosado. Fiquei desesperado “puta que o pariu, fudi com o carro do meu pai!!!”
Então lavei o carro com muita água e sabão por mais duas vezes e nada, lavei uma terceira vez e com querosene e nada... o carro teimava em ficar rosa.
Nesse ponto já estava semi-desesperado pela bronca que iria levar de meu pai, então levado mais pelo desespero que pela razão eu decidi levar até um lava-rápido que tinha a 15 quadras de casa. Entrei no carro, liguei o motor e sentei o pé na tábua para ir e voltar antes que o meu pai acordasse e notasse a falta do carro.
Passei zunindo pelas ruas sem saber a velocidade que estava, afinal eu não tinha noção de velocidade e não sabia ver direito o velocímetro, na realidade eu só sabia tirar e colocar o carro na garagem. Próximo de chegar ao lava-rápido virei a esquina rápido de mais e perdi o controle do carro que deu um cavalinho de pau e bateu com tudo a roda traseira no meio fio. A roda ficou torta, com isso desisti de ir para o lava-rápido e voltei com o carro capengando para casa! Escondi o carro na garagem e fiz questão de esquecer de tudo aquilo e se alguém perguntasse alguma coisa eu diria “não sei!”.
Meu pai passou o fim de semana sem olhar para o carro, mas na segunda feira quando ao ver o estrago o velho quase surtou, primeiro ele chamou a família toda para ver o estrago e perguntar se alguém sabia de algo, eu prontamente fingi estar espantado com o estrago e disse que não sabia de nada, tinha deixado o carro perfeito naquele dia.
Então o meu pai logo achou um culpado, o vizinho que ele odiava!!! Como os dois mal se falava meu pai só o culpou sem ir tirar satisfação (ele simplesmente se vingou, comprou umas latas de spray e deu uma leve pichada no carro desse vizinho...), já o nosso carro teve que receber uma nova pintura já que a cera estragou a pintura totalmente (estragar não estragou, mas deixou rosa). Até hoje ninguém sabe que fui eu que fiz a cagada!!!

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Privada cibernética



Essa é a segunda contribuição do leitor do blog Marco Aurelio Peruchi. Desculpe a demora mas a minha vida estava muito agitada... Estamos retomando as ativadades do blog.



Outro dia, zapeando os canais da televisão, entre caldeirões do Huck, o “pior do Brasil”, e outras tranqueiras que passam aos sábados... aliás me deixa fazer um comentário, se Deus criou o Domingo, o capeta deve ter criado o sábado, porque nunca vi dia pior, principalmente no que diz respeito a programação de TV.

Na sexta feira você sai da empresa feliz porque é o último dia da semana, sai com os amigos, vai para o buteco, enche a cara de cerveja Schincariol, come torresmo nadando na gordura misturado com mortadela e regada com limão, toma caipirinha de álcool em gel pensando que é vodka, os mais afoitos arriscam paquerar a filha do dono do buteco ou então alguma candanga de passagem, e termina a noite engalfinhado com uma criatura qualquer que voce não sabe de onde veio e nem para onde vai, feia como um Xerox do rascunho do mapa do inferno.

Aí você acorda no sábado vomitando colorido, com uma ressaca miserável e um gosto de capota de jipe na boca.

Não almoça porque seu estômago não consegue sequer olhar para nada sólido, e o jeito é curtir a dor de cabeça deitado no sofá vendo televisão.

Não bastasse o incômodo da ressaca, a programação de TV é uma verdadeira porcaria. Não tem absolutamente nada que se aproveite. Eu acho que os programadores de TV devem enfrentar os mesmos problemas que nós na sexta feira, e aí não tem nem vontade de colocar alguma coisa decente na programação de sábado.

Eles só ligam para a emissora e falam para o operador:

- Meu filho, faz o seguinte, vai lá no arquivo de fitas, faz uni-duni-tê, pega umas 5 ou 6 fitas velhas e põe aí para rodar.

Daí a gente é obrigado a assistir Flipper, Minha amiga Flika, Lassie, ou então Rocky 32, A invasão das aranhas assassinas, e por aí vai.

Mas voltando ao assunto....acabei por encontrar um documentário sobre a China ou Japão (sei lá, é tudo igual), o qual falava sobre os avanços tecnológicos dos eletrodomésticos. Geladeiras com internet, máquinas de lavar inteligentes (a minha por exemplo é muito burra...), micro-ondas com entrada USB que mostram fotos enquanto aquecem sua comida de ontem, etc.

Fiquei imaginando como seria a privada do futuro, pense no seguinte cenário, você vai até o banheiro, entra, fecha a porta, arreia as calças e senta na privada tentando relaxar:

Privada- Bom dia!

Você- Humm.

Privada- Que vai ser hoje, nº1 ou nº2?

Você- Não interessa.

Privada- Interessa sim, tenho que me programar para poder dar a descarga com o mínimo de água necessária para não deixar seus vestígios boiando aqui, economia é a palavra da vez, sabia?

Você- Cala a boca, onde fica o seu botão de desligar?

Privada- Você quer que eu cale a boca ou que te diga onde está o meu botão de desligar?

Você- Cacete! Você é chata hein! Não está vendo que eu estou tentando me concentrar?

Privada- Não, deste ângulo só consigo ver que você tem um princípio de hemorroida, aliás, você quer que eu faça algum exame? Quem sabe glicose ou vermes?

Você- Não, não quero nada, me deixa em paz.

Privada- Olha que você pode ter uma solitária e não sabe...

Você- Definitivamente eu não tenho solitária, e minha glicose está dentro dos limites normais, só estou tentando me aliviar aqui, você pode me deixar fazer minhas necessidades por favor?

Privada- Tudo bem, não precisa ficar nervoso, quer que eu toque uma musiquinha para você se distrair?

Você- Não!

Privada- Quem sabe um barulho de cachoeira, dizem que ajuda...

Você- NÃO!

Privada- Sons de pássaros cantando, alguma coisa para ler no meu monitor? Estou com a revista Veja desta semana, quer ver? Acabei da baixar da internet.

Você- PQP! Não quero P@#%$ nenhuma! Quero paz! Quero só poder cagar sossegado sem ninguém me enchendo o saco! Entendeu?

Privada- Há, então é o nº 2 mesmo! Logo vi pelo esforço! Vamos lá que eu te ajudo, dou um apoio moral tá?

Você- HUmmmmm!, Hummmm!, Hummmmmmm!

Privada- Vamos lá campeão! Você consegue! Já está apontando! Força rapaz!

Você- Hummmm! Hummmmmmmmm! Háaaaaaaaa!

Privada- Há! Há! Há! Há!

Você- Tá rindo do que?

Privada- Pô, você faz todo este esforço, sua veia do pescoço quase estoura, eu aqui esperando um amortecedor de caminhão e só sai estas duas bolotinhas, Há, há há!

Você- Putz! Você é escrota demais! Você analisa as pessoas pelo tamanho dos dejetos?

Privada- Não é nada disso Zé –ruela, tou vendo que você está ressecado, é culpa das porcarias que você anda comendo.

Você- Como é que você sabe?

Privada- Andei conversando com a geladeira, no final de semana eu, ela e o micro-ondas saímos para um happy hour e ela me disse que você só anda comendo comida congelada e salgadinho, assim você vai acabar com sua saúde camarada!

Você- Você acha que eu preciso comer algo mais saudável?

Privada- Olha, para o seu caso, yogurte com lactobacilos vivos é muito bom, repõe a flora intestinal e regulariza seu sistema digestivo. Se você continuar deste jeito seu fiofó vai virar uma flor em pouco tempo...

Você- Agora você me deixou preocupado...

Privada- Quem avisa amigo é.

Você- Tudo bem, vou tentar melhorar, dá pra limpar aí para eu ir embora?

Privada- Lógico, quer água fria ou morna?

Você- Morna por favor.

Privada- Agora espera que vou dar um jato de ar para secar.

Você- Huuuuuummm!!!

Privada- Pronto, vai com Deus.

Você- Obrigado. Olha, desculpe se fui grosso com você, você é até uma privada legal...

Privada- Tudo bem, logo vi que você estava carente, precisando conversar..

Você- Valeu, na próxima a gente conversa mais.

Privada- Não tem de quê, volte sempre, se você se sentir sozinho pode me procurar, estou sempre aqui, menos aos sábados, aí você tem que usar o urinol.

Você- Sábado você não trabalha?

Privada- Não, é meu dia de folga, e como não tem nada na televisão eu e ela vamos paquerar nas lojas de eletrodomésticos do shopping, tem cada lançamento que você precisa ver...

Você- humm, entendi, até mais então.

Privada- Inté!

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O Chevrolet 1951


Essa historia é uma contribuição do leitor do blog Marco Aurelio Peruchi, agradeço a sua colaboração Marcos, ótima historia.

Meu sonho de consumo, desde criança, eram os carros esportivos nacionais fora de série.
Como todo adolescente da minha geração cresci fascinado pelas Pumas, Biancos, Adamos, Miuras, Farus e outros modelos que, na época, estavam bem longe do meu poder aquisitivo de estudante de engenharia e trabalhador assalariado.
No final da década de 80, quando estes modelos entraram em baixa devido a abertura de mercado e a falência de quase todas as montadoras fora de série, comecei a vislumbrar a possibilidade de finalmente realizar meu sonho de criança.
Tive quase todos os modelos imagináveis, os quais comprava em estado lastimável por preço irrisório e restaurava com todos os detalhes de fábrica. Andava neles por 3 ou 4 meses e vendia por um preço absurdo. Eram os famosos “carros de golpe”, como os negociantes de automóveis costumavam chamar os esportivos nacionais, pois a gente comprava, restaurava e ganhava o triplo do dinheiro investido na hora da venda, sempre para um outro sujeito doido que tinha o mesmo sonho de poder guiar um carro que ele sonhava ter desde criança.
Passei alguns anos fazendo este tipo de coisa, e digo, ganhei muito dinheiro, até que estes mesmos carros passaram a ser olhados como colecionáveis e não mais como “carros de golpe”.
Bem, na verdade a estória que quero contar não é esta, serve apenas como ilustração para o que relato a seguir.
Lá pelos idos de 90 ou 92 tive minha primeira experiência com carro antigo.
Na época eu tinha um Chevette, e fui convidado por uma garota da faculdade (Karen, aliás um avião...) para um baile dos anos 60 no Clube Sírio Libanês em São Paulo.
O evento merecia uma preparação especial de minha parte, e eu não queria fazer feio, e para isto pensei em todos os detalhes.
Primeiro a indumentária, compatível com a época é claro, calça jeans calhambeque (não me perguntem onde eu consegui...), camisa de gola alta branca, botinha (sem meia), anel de brucutu de fusca, corrente e pulseira a La Roberto Carlos, blusão de couro e muita, mas muita, brilhantina no cabelo.
Faltava alguma coisa para completar. Um carro antigo!
Fui até a Jardineira veículos na Av. dos Bandeirantes na tentativa de alugar um, mas descobri que precisaria vender meu Chevette para poder alugar o modelo mais barato, sem contar que não poderia dirigi-lo, um motorista acompanharia o carro.
Desisti, é claro, não só por razões financeiras, mas também porque eu queria chegar guiando o carro na festa.
O final de semana se aproximava e nada de conseguir o tal carro. Eu já estava pensando na possibilidade de ter que me misturar ao restante dos réles mortais e ir com o meu Chevette, quando em uma conversa de bar um colega me disse que um tio dele tinha um Chevrolet 1951.
Imediatamente eu apelei para nossa amizade antiga, e implorei que ele falasse com o tio dele para me emprestar o carro.
Ele prometeu tentar persuadir o tio, mas não me garantia nada. Na sexta feira à noite ele me ligou, dizendo que tinha falado com o Tio, e que eu fosse até a casa dele para, então, irmos juntos ver o carro.
Meu coração se encheu de esperança. Fui, e venci. O tio já tinha seus 70 anos, e eu procurei ser o mais simpático e educado possível com ele.
Depois de muita conversa consegui que o ancião me emprestasse o veículo por uma noite, deixando de garantia meu Chevette e mais um monte de recomendações.
No sábado a tarde fui buscar o carro. O tio, solícito, me mostrou todos os detalhes, como dar a partida, engatar as marchas, usar os freios com parcimônia, tentando quando possível usar ao máximo o freio motor, enfim, uma aula de pilotagem expressa voltada para veículos idosos.
O carro era muito bom, e guardando as devidas proporções chegava a ser melhor que o meu Chevette. Preto, imponente, pneus de bandas brancas, estofamento impecável, e pasmem, até o rádio funcionava.
No sábado a noite me preparei para o evento, que prometia ser a noite mais feliz da minha vida, afinal eu tinha tudo o que eu esperava, o carro, a garota, a festa e para completar um visual de deixar qualquer Erasmo Carlos no chinelo.
Depois de devidamente banhado, paramentado e cheio de colônia Patchouli e gumex, me olhei no espelho e me senti o máximo. Meu tio, que estava de passagem por minha casa me emprestou uns óculos escuros que completavam meu visual de roqueiro.
Peguei o Chevrolet e fui buscar a garota. Cheguei na casa dela por volta das 22:00hs, e fui recebido pela mãe, pai e irmão menor.
Me fizeram entrar, sentar no sofá, me deram refresco, o irmão menor ficava me olhando de rabo de olho e rindo escondido.
Me fizerem um monte de perguntas, praticamente um inquérito, onde eu morava, o que eu fazia, de onde eu conhecia a filha deles, se bebia, se fumava, se era católico, qual sabonete eu usava, enfim, contei-lhes minha vida desde o útero materno.
Depois de quase uma hora, eis que surge do alto de uma escada que dava no piso superior do sobrado a minha deusa, linda, com um vestido rodado de tons florais, sapatos de dança com meia soquete, um penteado estilo Celly Campello e óculos gatinho.
Quase desmaiei, era muita areia para o meu caminhãozinho, aliás para o meu Chevrolet.
Após várias ressalvas feitas pelo pai, inclusive ameaça velada de homicídio se eu fizesse algo de errado, fomos liberados para ir ao baile.
O caminho foi maravilhoso, com ela ao meu lado no Chevrolet mexendo em todos os botões do painel e trocando as estações do rádio sem parar.
Chegamos em grande estilo, a rua estava cheia, e ao chegar na entrada do clube buzinei para o segurança, que fez questão de abrir caminho e tirar um carro que estava parado na frente da portaria para que eu estacionasse.
Desci do carro com todos me olhando, estufei o peito, levantei a gola da jaqueta e tropecei na sarjeta, o que fez meus óculos escuros irem parar do outro lado da calçada.
Não perdi a pose, abri a porta do Chevrolet, dei a mão para a garota e entramos triunfantes no baile.
Estava lotado, a banda tocava “GO, Jhonny ,GO” e fomos até o bar. Peguei uma Cuba Libre para mim e um ponche para ela. Ela me devolveu o ponche e bebeu minha cuba libre.
Alguns instantes depois gritou no meu ouvido que ia conversar com umas amigas e já voltava, e sumiu.
Fiquei ali com cara de paisagem, e descobri, tarde demais, que o único objetivo da garota era arranjar um idiota como eu, que enfrentasse o escroto do pai dela e a levasse a festa.
Não desanimei, voltei meus instintos de caçador para outras presas e até que me dei bem.
Bebi toda a prateleira do bar, e lá pelas 4:00hs da manhã, reaparece a garota, completamente bêbada, amparada por duas amigas talqualmente alcoolatradas me pedindo para leva-la de volta para casa.
Como já estava mesmo na hora de ir embora, e com medo de levar um tiro do pai dela, que já tinha até o endereço da minha casa, resolvi leva-la.
Aquela hora da madrugada a rua já estava bem deserta, com as últimas pessoas saindo do baile e poucos carros.
Abri a porta do Chevrolet e literalmente coloquei a garota no banco de trás como quem carrega um saco de batatas.
Ela deitou no banco e apagou. Dei a volta, abri a porta do motorista, sentei, coloquei a chave no contato e girei.
Ouvi um “Tec”, e mais nada. Estranhei, tentei novamente por várias vezes até que me dei conta que a bateria tinha arriado.
A rua era plana, com uma ligeira inclinação em descida perto da esquina. Soltei o freio de mão e munido de todas as forças que ainda me restavam aquela hora da madrugada tentei, sem sucesso, tirar o carro do meio fio empurrando.
O dinossauro não se moveu nem um milímetro. Comecei a ficar nervoso, o suor escorria da minha testa e minhas mãos estavam molhadas. Em outra tentativa de mover o carro minha mão escorregou, eu me desequilibrei e cai. Quebrei os óculos emprestados do meu tio e rasguei o fundo das calças.
Já puto da vida fui até a frente do carro e me sentei na calçada a fim de respirar um pouco. Fiquei olhando a frente do Chevrolet, a grade e os faróis lembravam uma cara gorda e o bico do capô um nariz adunco. Aquele desgraçado estava rindo da minha cara...
Perdi a paciência, levantei da calçada e enfurecido dei um chute de bico no pneu dianteiro, que me custou o zíper da bota e uma unha roxa no dedão.
A garota dormia como se nada estivesse acontecendo.
Já eram quase 6:00 da manhã quando passou um caminhão com um monte de gente em cima da carroceria. Estavam de uniforme de futebol, e provavelmente iriam jogar em algum lugar.
Pulei na frente do caminhão e o motorista parou. O pessoal da carroceria começou a xingar o motorista chamando ele de carroceiro devido a freada brusca.
Pedi ajuda para empurrar o carro, e não sei se por pura farra ou se por dó daquela figura grotesca que aquelas horas parecia mais um punk do que um roqueiro resolveram me ajudar.
Desceram da carroceria, deviam ser uns 15 candangos, e aos gritos de “Vai, Vai!” finalmente conseguiram mover o chevrolet moribundo do meio fio.
Eu, ao volante, esperei que ele chegasse a uma certa velocidade, liguei a chave, engatei uma terceira e tirei o pé da embreagem. Uma nuvem de fumaça cobriu a rua, e o motor entrou em funcionamento.
Puxei o afogador para manter a aceleração e dei com a mão para agradecer o pessoal que ficou no meio da rua enfumaçada gritando e comemorando com se fosse gol do Brasil em copa do mundo.
Algumas esquinas depois a garota fez menção de levantar e sentar-se, mas acho que com o balanço do carro alguma coisa não deu certo e ela vomitou no banco do carro.
Por sorte já estávamos perto da casa dela. Deixei-a sentada no portão de entrada do sobrado, toquei a campainha, entrei no Chevrolet e sumi. Graças a Deus nunca mais a vi, nem ela nem o pai dela.
Cheguei em casa, lavei o carro (sem desliga-lo com medo de ele não funcionar mais), e fui devolve-lo ao tio do meu amigo.
Era domingo, e depois de entregar o Chevrolet, descobri que o tio do meu amigo tinha me ensinado tudo, menos a desligar a chave geral que ficava dentro do cofre do motor e que servia para não deixar a bateria descarregar.
Mais tarde, sentado na privada do banheiro de casa, cheguei a conclusão que aprendi várias coisas neste dia:
1- Nunca confiar nas mulheres nem nos carros antigos, por melhor que eles pareçam uma hora vão te deixar na mão.
2- Carros antigos são como mulheres e piscinas, bonitos, dão status, são prazerosos, mas você gasta muito dinheiro pelo tempo que passa dentro deles. E a regra número 1 continua valendo.
3- Por mais que voce saiba sobre carros tem sempre alguma coisa ainda para aprender
4- Antes de sentar no vaso sanitário e começar o serviço verifique se tem papel higiênico.

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Minha primeira viagem de avião

Meu tio Bira estava indo para São Paulo participar de uma feira agrária, seria a primeira vez que ele iria a uma cidade grande e seria a sua primeira vez dentro de um avião. Como ele era muito tapado e perdido (e muito caipira), ele pediu para a mãe que eu o acompanhasse na viagem para o ajudar em tudo.

Estava super animado com a idéia, seria a primeira vez que eu viajaria de avião, também iria conhecer a grande cidade de São Paulo (25 de março, lá vou eu comprar bugigangas, huhuuu).

Percebi que a viagem não seria tão tranqüila como imaginava quando o tio Bira começou a arregar ao entrar no aeroporto, o infeliz começou a suar frio e a dizer que as pernas estavam tremendo. Logo ele começou a me questionar: Como algo tão grande e pesado voava e na caia? Mas até aí estava tudo nos conformes, pelo menos ele estava andando sozinho.

O problema foi convencer o meu tio a entrar no avião, ele parou na porta e simplesmente disse “Não vou!!!”

Eu e duas aeromoças começamos a tentar convencer o meu tio a entrar na porcaria do avião, com um pouco de calma e muita psicologia ele disse “Eu vou!”. Deu alguns passos para frente e voltou tudo novamente e disse “Não vou”. O infeliz ficou nesse vou e não vou por algum tempo, acabou repetindo aquela vergonhosa cena mais algumas vezes. Mas com muito insistência ele conseguiu fazer com que todos em sua volta perdessem a paciência, logo desistimos de conversar e o empurramos para dentro do avião.

Dentro do avião o tio Bira ficou estático em sua poltrona (pelo menos parou de tremer), quando o avião começou a taxiar na pista, meu tio se agarrou na poltrona e começou a rezar em voz baixa. Quando o avião levantou vôo ele começou a rezar o terço e a dizer “Ave Maria e nossa senhora ” em voz alta.

Durante o vôo ele não falou, não comeu, não foi ao banheiro, não abriu os olhos... ele simplesmente não fez nada a não ser rezar. Quando alguém tentava falar com o tio Bira, ele respondia rapidamente “não posso falar, estou rezando !”.

Quase no fim da viagem o comandante disse “Senhores passageiros, vamos passar por uma leve turbulência”.

- João, o que seria uma leve turbulência? (disse o meu tiro interrompendo suas orações)
- É quando o avião treme um pouco tio.
- AVE MARIA! Além de voar esse troço treme?

Então o avião começou a tremer e meu tio começou a rezar em voz alta (um pouco vergonhoso, mas eu estava curtindo a minha primeira viagem de avião, nem ligava), logo o avião deixou de tremer para chaqualejar, o avião balançava tanto que a gente se desgrudava das poltronas. Nisso o meu tio começou a gritar:

- Ai meu Deus do céu, eu vou morrer hoje? Ai Jesus perdoe os meu pecados, eu deveria ter mandado o meu patrão a merda e ter dito para ele ter vindo em meu lugar, pelo menos eu me livraria daquela peste!!! Eu vou morrer sem ter filho ou mulher, quem é que vai me enterrar e me velar? Eu to fudido! Essa merda vai cair e nem vai sobrar pó para velar. Santa Maria, eu sei que fiz muita merda, eu trai, eu fui mulherengo, eu bebi de mais, cafajeste, muquirana, galinha, mentiroso, vagabundo, irresponsável, trambiqueiro, sacana, inescrupuloso e entre outras coisas! (pode-se ver que meu tio era um bom homem!!!) Mas não me deixe ir para o inferno Nossa Senhora!!!!

Não era apenas o meu tio gritando, o avião inteiro estava gritando, tinha gente chorando, gente rezando, gente se despedindo, gente apenas gritando... eu era o único são (mesmo estando paralisado de medo). Depois de um tempo o avião parou de tremer, mas mesmo assim as pessoas continuaram gritando, só pararam de gritar quando o avião pousou, os gritos e rezas foram substituídas por palmas. Meu tio Bira soltou uma ultima perola antes de sairmos do avião.

- Ainda bem que estou de calça preta! Porque me borrei todo!!!!

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