Baba dos velhinhos


Meu avô participava de todos os passeios que a igreja realizava para os idosos, poderia ser um passeio ate a esquina da igreja que meu avô não perdia, nesses passeios iam apenas idosos, com exceção das chamadas “babás”, eram duas moças (netas da senhora que organizadora dos passeios) que iam para auxiliar os velhinhos.
Uma vez o meu avô e a dona Noeli (quem organizava os passeios) conseguiram uma coisa que eles queriam a tempos, um passeio ao jardim zoológico, claro que foi bem difícil, alem da ajuda da igreja, eles tiveram que pedir auxilio a prefeitura. Esse passeio era a realização de um sonho de meu avô, o de ir ao jardim zoológico, a vontade dele ir ao zôo era tanta, que dois messes antes já estava ansioso pelo passeio, e mal conseguia dormir, vendo esse entusiasmo dele eu resolvi conversar com meu avô a respeito do passeio e acabei tendo uma surpresa.
- Então vô você ta muito ansioso pelo passeio?
- E como! Não vejo a hora de ver o leão.
- E já esta tudo certo para o passeio?
- Ta sim, teve um pequeno probleminha, mas eu já resolvi.
- Que probleminha?
- As moças que vão com a gente não vão poder ir, elas vão fazer uma prova no colégio, mas eu já arrumei uma pessoa para ir com a gente.
- Quem?
- Você e o neto da Zoraide, aquele seu amigo o Marcelo!
- Como eu??? Mas eu nem me ofereci!!!
- Você não se ofereceu memo, fui eu memo que ofereci você!!!
- Que isso!!! E quando que você iria me contar essa historia?
- Qualquer dia desses eu ia te contar!!!
- E quem disse que eu vou???
- Eu!!! primeiro não custa nada você nos acompanhar, nos não vamos dar nenhum trabalho já que sabemos nos virar muito bem, segundo você não vai ter nenhum compromisso já que você vive coçando os bagulhos sem fazer nada e terceiro e ultimo, se você não for eu vou contar a sua mãe que você transformou a torradeira dela em aquecedor de acento!!!
Depois de tais apelos, não tive escolha senão a de ir acompanhar os velhinhos!!! No dia do passeio tive que acordar bem cedo, cerca de 4 da manha, para poder ir ajudar o meu avo e a dona Noeli nos preparativos da viagem. Quando eram 5 da manhã eu e meu avô já estávamos na igreja, e para minha surpresa não éramos os únicos, a maioria das pessoas que iam no passeio já estavam lá (o povo que gosta de acordar cedo esse de minha cidade), e logo que cheguei já arrumei o meu primeiro problema, como eu não era acostumado a acordar tão cedo, eu estava mais para zumbi que para humano, e por estar assim eu não reparei que tinha um senhor com as pernas todas esticadas (como se estivesse no cinema) no meu caminho, e sem querer eu tropecei nas pernas daquele senhor, antes que eu pudesse pedir desculpas o velhinho se levantou e começou a me dar bengaladas e a gritar comigo:
- Seu lazarento!!! Será que você não olha por onde anda seu cavalo!!! Presta mais atenção seu filho da *&%$*!!!
- Desculpa foi sem querer...
- Sem querer nada, foi de propósito mesmo!!!!!
Meu avô por sua parte fico observando a cena de longe e quase se matando de tanto rir, quando finalmente me livrei da muleta do velhinho, fui ate o meu avo e perguntei “pô vô! Porque você não me ajudou?” e com a maior cara de sacana o meu ele respondeu “você tava precisando acordar e nada melhor para acordar que umas boas bengaladas!”. Finalmente no salão de festas da igreja, fui designado para a fazer o chá, fui ate na cozinha e lá eu encontrei o Marcelo preparando os sanduíches, fui ate ele e perguntei:
- Como sua vó te convenceu de vir?
- Não foi ela, foi minha mãe!!! E você como te convenceram a vir de baba?
- Meu avo ameaçou contar o causo da torradeira para minha mãe.
- Qual deles? Aquele que a torradeira virou catapulta ou que a torradeira virou aquecedor de acento?
- Aquecedor de acento.
- Puxa ele pegou pesado dessa vez!!! Vai ser dura essa viagem, ate agora eu só recebi bronca.
- Bronca? Isso não é nada, perto das bengaladas que um velhinho acabou de me dar.
Papo vai e papo vem, e acabei falando para o Marcelo o seguinte “puxa se houvesse um jeito de acalma-los, eu teria certeza que a viagem seria mais tranqüila” e daí o Marcelo respondeu “acho que tem sim! Segura as pontas ai que eu vou ate na minha casa buscar um negocio!!!”. Fiquei lá fazendo o trabalho dele (sinceramente na hora eu pensei que aquilo era desculpara para escapar do trabalho), dez minutos depois ele voltou com um saquinho na mão.
- O que é isso que você trousse?
- Essa é a nossa salvação! Isso vai deixar os velhinhos calminhos e relaxados, quase andando nas nuvens!!!
- Me da isso (quando olhei para oque havia dentro, quase tive um ataque no coração). Caraio!!! Isso é maconha!!!
- É sim!!! E das boas!!!! Agente coloca isso na comida dos velhos e eles vão ficar calminhos calminhos...
- Será que você surto? Ou será que é burrice mórbida? Cara isso daí vi matar uma meia dúzia dos velhinhos, e se alguma coisa acontece vai sobrar para gente!
- Relaxa!!! Vai dar nada!!!
- Cara eu não vou dar isso para meu avô e nem para o outros, pega essa porcaria e a leve para longe!
Apesar de fazer uma cara feia, ele acabou concordando comigo e saiu para o pátio, então o meu avô me chamou, fui ate ele que irritado me perguntou “cadê o cha???” e eu respondi ”calma vô já to fazendo”, quando eu voltei, vi o Marcelo com a maior cara de tacho:
- E ai!!! Você se livrou daquela porcaria?
- Já dei fim nela sim!!!
Depois de alimentados, os velhinhos logo entraram no ônibus (para mim sobrou levar a bagagem deles, não sei por que, mas teve alguns que levaram malas abarrotadas para uma viagem de um dia) e saímos de viagem para a capital. No começo estava tudo bem, a viagem tava tranqüila, a estrada boa, os velhinhos cantavam animadamente todo tipo de musica, mas a musica que predominava era os hinos de igreja, mas depois de algum tempo (depois de quase duas horas de viagem) algo de estranho começou a acontecer na cantoria dos velhinhos, primeiro cada um começou a cantar num ritmo, enquanto um estava cantando o começo da musica outro já estava cantando o final, mas depois tudo piorou, quando alguns deles começaram a cantar musicas totalmente diferentes daquela que o coro estava cantando, então fui ate o final do ônibus, onde marcos estava, e fiz um comentário para ele:
- Nossa acho que alguns dos velhinhos surtaram!!!
- Deve ser o cansaço da viagem.
- Alias me responde uma coisa, onde você infiou aquele saco cheio de maconha?
- Bemmm!!! Ééééé!!!
- Desembucha logo!
- Eu despejei ele num lugar.
- Que lugar???
- Bem!!!! Dentro da caixa de caixinha de chá, daí eu misturei com o chá!!!
- Mas que car*&%$! Por isso uma senhora pergunto se era chá de erva cidreira, então quer dizer que você deu chá de maconha para os velhinhos...
- Eu não, foi você que fez o chá e foi você que serviu!!!
- Mas foi você que colocou escondido aquela porcaria dentro da caixa de chá!!!
- Claro, se não fosse desse jeito você não iria deixar eu colocasse o negocio lá dentro!!!
- Claro que não ia deixar! Olha só o efeito de sua cagada, os velhinhos estão surtando.
- Calma o efeito passa!!!
E pelo resto da viagem ficamos discutindo nos fundos do ônibus, enquanto os velhinhos surtavam. Quando finalmente chegamos ao zôo, logo percebi o grande problema que eu tinha nas mãos, alem de todos estarem falando juntos, tinha alguns velhinhos que não estavam muito bem, como por exemplo o senhor que estava com dificuldades de ficar em pe, o pobre coitado tava andando de pernas abertas que nem aqueles cowboys americanos.
Ao entrar no zôo, os velhinhos ficaram na maior folia ( como eu disse muitos deles nunca haviam estado num zôo antes), com a maior cautela fui conduzindo os velhinhos pelo zôo, no começo do passeio só havia pássaros e alguns macacos, mas logo chegamos numa das melhores atrações do zôo, o hipopótamo, das ultimas vezes que eu fui ao zôo eu não tinha visto o hipopótamo, já que ele estava submerso na água, mas naquele dia estávamos com sorte e ele estava fora da água, todos ficaram admirados com o aquele baita bicho, daí teve um senhor que empolgado falou “nossa como esse elefante é bonito!!!” daí uma senhora que estava ao lado perguntou ao mesmo “você tem certeza que é o elefante?” e o senhor respondeu ”claro que sim!!! Olha como esse bicho é gordo!!!”, daí todos bateram palmas ao “elefante” e continuamos o passeio.
Na jaula do jacaré os velhinhos deram uma parada para descansar, o espaço onde os jacarés ficavam era um grande lago cercado de uma faixa de terra coberta por grama e algumas arvores, todo esse espaço era cercado por uma pequena cerca de 1,5 m de altura, para falar a verdade era um lugar bem bonito, fiquei lá olhando dentro da jaula dos jacarés quando eu viro o rosto para o lado, vejo algo estranho dentro da jaula, um senhor só de samba-canção:
- Tio o que o senhor esta fazendo ai dentro??? (disse com um berro)
- Vou nadar naquele lago!!!
- Sai daí! Esse lugar ta cheio de jacaré!!!
- Que jacaré nada!!!
Apesar dos avisos, ele se recusou a nos ouvir (aquela atitude devia ser o efeito do chá do Marcelo), vendo que não tinha outra alternativa, eu e o Marcelo pulamos a sequinha e pegamos o velho a força, apesar de estarmos fazendo um favor para ele, enquanto o arrastávamos, o velhinho nos xingou com palavrões que eu nem sabia que existia, mas o pior foi colocar a roupa nele de volta, enquanto colocávamos a roupa (forçadamente) nele, ele nos dava bengaladas. Depois que uma senhora brigou com um lontra ( ela alegava que a lontra estava rindo dela) e de um senhor que queria pegar no rabo da onça (dizia ele que dava sorte), o passeio acabou bem.
Depois que acabou o passeio, nos dirigimos para uma lanchonete que ficava fora do zôo, para fazer um lanche para ir embora, eu estava aliviado em saber que tudo aquilo estava acabando, mas o que eu não sabia era que aquilo era apenas o começo. Quando chego na lanchonete do de cara com o motorista do ônibus torto de bêbado sentado numa mesa no fundo da lanchonete, cheguei perto dele e tentei falar com ele:
- E ai! Você ta bem cara?
- Hic!!! Eu to ótimo... por que?
- Porque você ta bêbado...
- Bêbado não!!! Só um pouco zonzo!!!
Daí ele tentou se levantar da cadeira, mas ele estava tão bêbado que não conseguiu, vendo a situação, fui ate o Marcelo, o puxei para um canto e falei com ele:
- cara o motorista encheu a cara enquanto estávamos dentro do zôo, ele entorno tanta pinga que mal para em pé!
- Ah!!! Para de zoar comigo! Acha que ele ia beber tanto sabendo que ele tem que nos levar para casa?
- Se não acredita vai lá ver...
O Marcelo teimou e foi falar com o motorista, chegou lá, trocou duas palavras com ele e volto branco com cara de “cachorro que caiu da mudança”.
- Cara era verdade mesmo, o cara ta mais bêbado que barata em copo de cerveja! E agora João o que vamos fazer?
- Sei lá!!! Se tivesse sozinho seria fácil, mas com esse monte de vovô e vovó chapados e um motorista bêbado fica difícil.
- Calma ai!!! tive uma idéia!!!
- É eu percebi logo que senti o cheiro de queimado!!!
- Serio!!! A gente coloca todo mundo dentro do ônibus e eu dirijo o ônibus de volta!!! Eu já vi o meu pai dirigir caminhão! É quase a mesma coisa!
- Mas você já dirigiu caminhão?
- Não!
- E carro?
- Não!
- Você pelo menos já andou de bicicleta?(respondi ironizando, mas fiquei surpreso com a resposta)
- Não! Mas eu já joguei muito vídeo game!!!
- Santa @#%&* como você quer dirigir um ônibus sem nunca ter nem andado de bicicleta?
- E você já dirigiu algo?
- Bem eu tenho o costume de dirigir o fusca do meu avo quando vou lá no sitio.
- Então você dirige!!!
- Eu??? Cara eu só dirigi um fusca em minha vida, como você quer que eu dirija um ônibus?
- É a mesma coisa, mas se você preferi a gente pode passar a noite aqui com esse monte de velho e espera o motorista melhora!!!
- Prefiro dirigir o ônibus!
- Mas e eu vou fazer o que?
- Você pode ficar rezando para que nada aconteça...
E foi assim mesmo que fizemos, embarcamos os velhinhos, depois carregamos o motorista para dentro do ônibus, depois que todos se sentaram, fui ate o lugar do motorista, fiz o sinal da cruz, sentei e dei a partida, marcos se sentou ao lado no banco do carona. Depois de tomar coragem, eu um menor de idade, que só havia dirigido um fusca, comecei a dirigir aquele baita ônibus, no começo o ônibus deu umas engasgadas, mas o Marcelo me deu uns toques que o pai dele o havia ensinado, o ônibus ratiou, mas aos trancos e barrancos nos começamos a viagem para casa. No começo eu me bati muito para dirigir o ônibus, principalmente dentro da cidade, subi nos meio-fios, andava no meio da pista, congestionei o transito etc... mas quando chegamos na rodovia, tudo ficou mais fácil, afinal na rodovia tem mais espaço e menos curvas, ate que na rodovia eu mandei bem.
A viagem que deveria durar 3 horas, durou 5 horas e meia, isso por eu estar dirigindo bem divagar, mas teve uma parte da viagem, que eu olhei para frente e vi a rodovia toda livre, não havia nenhum carro, sinceramente eu não ia perder essa oportunidade, comecei a acelerar o ônibus, e cheguei na incrível marca de 125 km/h, daí eu me senti o tal, o bonzão, mas a alegria durou pouco, quando eu avistei uma placa de curva eu já reduzi aos 60 km/h de novo.
Então depois de 5 horas e meia de viagem, nós chegamos finalmente em casa, quando chegamos na igreja havia varias pessoas nos esperando, estavam todos preocupados imaginando o pior por causa do atraso. Apesar do meu feito heróico de ter vindo dirigindo de volta o ônibus e ter trazido todos são e salvos, eu levei a maior bronca dos meus pais “você é doido moleque? Por que não ligou para cá para nos avisar? Se você tivesse ligado agente teria mandado alguém para socorrer vocês!”(dizia meus pais), sinceramente eu nem pensei em ligar pedindo ajuda, mas eu não tava com saco para esperar e também, eu não iria perder essa oportunidade de ter uma bela aventura (e se eu percebesse que não era capas de levar o ônibus para casa eu teria ligado logo no começo da viagem), o que eu fiz pode ter sido loucura e uma burrice, mas foi uma das melhores coisas que eu já fiz em minha vida, valeu a pena ter feito a viagem.

2leep.com

2 Comentarios:

Abreu disse...

muito legal a história
ri muito

abs

http://ruaazul.blogspot.com/

Anônimo disse...

Muito Legal
Meu sonho e dirigir um onibus
eu tenho14 anos,e so sei dirigir a colheitadeira de meu pai o carro e o trator.

 
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